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Quanto vale um nick-name?

Tão tristes estão todos.

Desço a rua a pensar noutra coisa e como de costume não estou com os meus passos. Levanto a cabeça e o meu olhar cruza-se com o de alguém. Surpreende-me sempre aquela tristeza entaipada, aquele pânico nos olhos que rapidamente se desviam. Já me habituei, sem dar por isso, ao suplício de ter que viver aqueles escassos momentos em que se vai de um lado para o outro, com uma multidão de estranhos. Ainda me faz tremer entrar em contacto com eles, por muito ténue que ele seja. Quero dizer, é assustador pensar que uma massa em movimento, vagamente parecida com um ser humano, possa transportar o mesmo saco de nós que eu.

O que me parece fascinante é que quando um destes anónimos passa da rua para, por exemplo, um café ou uma loja, a segunda camada de anonimidade entra em funcionamento. Bem sei que falam com os empregados, contam anedotas, alguns chegam mesmo a contar detalhes da vida pessoal, se bem que esses, pelo que me parece, não estão tanto a contar em benefício de com quem estão a falar, mas sim para a galeria. Quanto mais pessoal ou polémica é a opinião, mais alto a expõem. Como se estivessem a convencer-se a si próprios. Como se estivessem a falar de si para si. Como se estivesse a desenrolar-se uma peça de teatro dentro do mesmo corpo, em que as personagens não se conhecem umas às outras.

Vejam-se os amantes, sobretudo do sexo masculino. Quando estão entre homens ou sem namorada são o arquétipo do macho latino, vociferantes, sexistas e misóginos. Em privado, com a namorada ou a esposa, já não é assim. São dóceis e obedientes, e, se a relação ainda estiver nos primóridios, são uns pinga-amores insuportáveis, piores do que uma sopeira que acabou de digerir dez volumes de Corin Tellado. Mas estas são pessoas triviais. Já existem faz agora uma vida inteira. Somos nós, pois é.

Eu sei que são os mesmos que costumo encontrar no IRC, no LambdaMOO, nos MUDs e nos Talkers. Existe, é claro, a vaga hipótese de todos eles serem aves raras que só saem à noite, às escondidas, mas não creio. Os que conheci IRL podiam perfeitamente ser das dezenas que andam na rua ao mesmo tempo que eu. É que o pathos lusitano deixa de ser relevante quando se esconde por detrás de um alias ou avatar. São todos mais puros. Mais puramente idiotas, desinteressados, interessantes, gentis, insuportáveis e todos esses adjectivos normalmente impossíveis de aplicar aos seres humanos do dia a dia, mesmo aqueles com quem troco algumas palavras. Transformam-se. Falam uns com os outros. Quando estão online, amam-se, insultam-se, zangam-se e reconciliam-se. E nem sequer se conhecem. Se calhar é porque não se conhecem.

E que fique claro: explicar isto com a esquizofrenia que supostamente nos habita não chega. Kretschmer dizia que toda a população mundial era distribuível numa curva normal entre os maníaco-depressivos e os esquizofrénicos. Segundo ele, estamos algures no meio (ou, nalguns casos, num dos extremos) dessa curva. Os anos 90 são nítidamente esquizóides, mas neste contexto o termo foi mal escolhido. Quando Bleuler definiu esquizofrenia, o que ele queria descrever era um estado de mente dividida. Dividida não dentro de si, mas sim dividida da realidade. É que esquizofrenia não tem nada a ver com a raríssima desordem de múltiplas personalidades. Esquizofrenia é a antiga dementia praecox de Emil Kraepelin e dessa sofremos quase todos. Obrigado Lisboa.

Nesse sentido, o uso de avatars e aliases não é uma recriação do meu verdadeiro eu, tal como eu gostava que ele fosse, que ele é ou que ele deveria ser. O meu nick nos IRCs, MOOs e MUDs serve sobretudo para fazer desaparecer o resto do mundo. As conversas são com ele. As respostas são dele. É tudo com ele e a mim não chega nada. Ele é o meu filtro e a parede da minha fortaleza. Esta semana, por exemplo, ele é um organismo semi-mecânico, de sexo indeterminado, no LambdaMOO. Por isso, ele pode ser como quiser. Não tem compromissos nem obrigações, não tem estatuto social nem visual a defender ou a fazer respeitar. Não conhece ninguém, não está sujeito a más línguas. Nem sequer tem que se preocupar com aquilo que é ainda pior do que um insulto ou uma calúnia: um elogio, essa amante caprichosa. Ele tem sempre a mais eficaz das saídas de emergência, ou seja, pode simplesmente deixar de existir e recomeçar de novo.

Cá fora, na vida real, nunca se pode começar de novo. Nunca consegui fugir tão longe que me perdesse de mim mesmo. Ou de nós mesmos. Ou dele, mesmo.

Original publicado no defunto Top 5% Webzine

 

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