Passear
Olho para todos estes anos de angústias, alegrias, desesperos, resignações e revelações e por uma vez, não, pela primeira vez parecem-me pequenos estes extremos a que me deixei sucumbir. Como é que gastei tanto tempo, tanta energia, tanta paciência de tanta gente com perguntas irrelevantes? Gastei-o à espera de uma resposta, só uma que me desfizesse todas as dúvidas de uma vez por todas, uma voz que me dissesse: “Este és tu. Não hesites mais.” A única certeza que mantenho ainda é que essa voz, se é que existe, não vem de nenhuma espécie de estrutura organizada, com assembleias e livros mais ou menos sagrados. Não acredito que os sacerdotes (que se chamem eles “sacerdotes”, “membros do partido”, “estrelas” ou outra coisa qualquer) saibam mais sobre mim do que eu, que não sei nada. O teste é, sempre foi, bastante fácil; só deveria poder guiar-te quem o não quer fazer por saber o perigo que isso representa, tanto para ele como para ti.
É estranha esta sensação de estar a levantar a minúscula ponta de um véu que por agora parece infinito, mas sempre é melhor do que viver à espera de levantar o véu todo de uma só vez e por isso não acontecer tapar o véu com ainda mais véus, por despeito. Foi isso que eu fiz. Fiz pior aliás; convenci-me que existia uma espécie de redenção por ter reconhecido uma dimensão da tarefa e desistido dela.
São as pequenas coisas. Não têm fim. Cada uma delas tem que se ir conjugando com as anteriores, em polifonia. O desespero da enormidade é falso (e fácil) porque essa enormidade não existe. É infinita e portanto absoluta e portanto tanto é gigantesca como microscópica e portanto não é nem uma coisa nem a outra.
É preciso começar a andar.